Dois coronéis do Exército, Bernardo Romão Correa Netto e Fabrício Moreira de Bastos, confirmaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) a existência da “Carta ao Comandante do Exército de Oficiais Superiores da Ativa do Exército Brasileiro”. Eles declararam que tiveram acesso ao documento por solicitação de superiores, durante interrogatório realizado no STF.
Bastos revelou que recebeu a ordem de seu superior no Centro de Inteligência do Exército (CIE) para encaminhar a carta quando estivesse pronta. Sem integrar o grupo em que a carta circulava, pediu a Correa Netto, que participava, o envio do arquivo. Segundo Bastos, o coronel De La Vega sabia do manifesto sendo preparado pela turma de 1997, na qual Bastos fazia parte, e condizente com o contato e encaminhamento da carta ao comandante do Exército.
O coronel Bastos descreveu a carta como “muito mal escrita” e interpretou o documento mais como um desabafo dos oficiais envolvidos. Ele ainda qualificou a ideia daquelas lideranças de acreditarem que poderiam pressionar 16 comandantes do Exército como “uma inocência quase franciscana”.
Correa Netto, por sua vez, confirmou ter enviado a carta a Bastos por solicitação, mas declarou que discordava do conteúdo, considerando-o um “ato de indisciplina”. Ambos os coronéis informaram que o Exército realizou uma sindicância e aplicou punições aos responsáveis pela assinatura e circulação do manifesto.
Os réus negaram qualquer discussão ou alteração da carta em reunião na noite de 28 de novembro de 2022, contrariando a denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR), que acusa os militares de debaterem e modificarem o documento em um salão de festas em Brasília. Correa Netto classificou o encontro como um “encontro entre amigos” e afirmou que as últimas alterações tinham ocorrido pela manhã, conforme relatório da Polícia Federal (PF).
Carta aos Comandantes
A denúncia da PGR indica que os tenente-coronéis Ronald Ferreira de Araújo Júnior e Sérgio Cavaliere participaram da elaboração da “Carta ao Comandante do Exército de Oficiais Superiores da Ativa do Exército Brasileiro”. O documento foi vazado a Paulo Figueiredo, apresentador do programa “Pingos nos Is”.
O objetivo da divulgação seria usar os comandantes resistentes ao golpe como uma força para potencializar ataques pessoais e fortalecer a adesão ao manifesto. Araújo e Cavaliere também teriam atuado para persuadir e pressionar o comando superior do Exército a levar adiante o golpe.
Núcleo 3
Conforme a denúncia, o chamado núcleo 3 é responsável pelas ações de campo para monitoramento e neutralização de autoridades públicas. Também promovem ações táticas para convencer e pressionar o alto comando do Exército a concretizar o golpe.
Os acusados no núcleo 3 são:
- Bernardo Romão Correa Netto – coronel do Exército;
- Fabrício Moreira de Bastos – coronel do Exército;
- Márcio Nunes de Resende Jr. – coronel do Exército;
- Hélio Ferreira Lima – tenente-coronel do Exército;
- Rafael Martins de Oliveira – tenente-coronel do Exército;
- Rodrigo Bezerra de Azevedo – tenente-coronel do Exército;
- Ronald Ferreira de Araújo Jr. – tenente-coronel do Exército;
- Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros – tenente-coronel do Exército;
- Estevam Theophilo Gaspar de Oliveira – general da reserva do Exército;
- Wladimir Matos Soares – agente da Polícia Federal.