A decisão do Brasil de deixar a IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto) gerou críticas e debates acalorados. O comissário da OEA para o Monitoramento e Combate ao Antissemitismo, Fernando Lottenberg, considerou a saída um erro grave, sobretudo no contexto de uma crise diplomática crescente com Israel. Integrante como observador desde 2021, o Brasil passará a não participar mais da aliança que reúne mais de 45 países e milhares de instituições comprometidas com combater o antissemitismo.

Lottenberg ressaltou a importância da definição de antissemitismo adotada pela IHRA, que, apesar de não ter validade jurídica, serve como referência global fundamental para identificar e combater o preconceito contra judeus. “Ao abandonar a IHRA, o Brasil perde uma ferramenta reconhecida mundialmente para enfrentar o ódio antissemita”, afirmou.

Além de apontar para o valor simbólico e prático da participação brasileira, o comissário enfatizou que o trabalho da IHRA deve se manter independente de desentendimentos políticos, sobretudo diante das tensões recentes entre Brasil e Israel geradas por posicionamentos do governo brasileiro na esfera internacional.

Contexto da saída do Brasil da IHRA e o impacto diplomático

A decisão da chancelaria israelense de anunciar a saída do Brasil da IHRA ocorreu após o país expressar apoio a uma ação levada à Corte Internacional de Justiça (CIJ) pela África do Sul contra Israel, por supostas violações na Faixa de Gaza. A acusação envolve a caracterização das ações israelenses como genocídio e assassinato em massa de civis, segundo relatos oficiais.

Desde o início da atual administração federal, as relações entre Brasil e Israel sofreram forte deterioração. Um dos pontos de maior tensão foi a comparação feita pelo presidente brasileiro entre a ofensiva militar de Israel em Gaza e o Holocausto, provocando severa reação do governo israelense, que declarou o presidente brasileiro persona non grata e promoveu a retirada do embaixador do Brasil de Tel Aviv.

Para Lottenberg, o Brasil mantém a segunda maior comunidade judaica da América Latina, o que torna ainda mais relevante o comprometimento com organismos que preservam a memória e lutam contra o antissemitismo. Ele defende que permanecer na IHRA é uma forma clara de reafirmar o respeito à história e o combate ao preconceito, independentemente dos posicionamentos políticos externos.

Reações oficiais e posicionamento de Israel

O ministério das Relações Exteriores de Israel criticou duramente o Brasil. O órgão afirmou que, em um momento em que Israel luta pela própria sobrevivência, ter a postura de abandonar um consenso global contra o antissemitismo e atacar o Estado judeu é “imprudente e vergonhoso”.

A nota oficial também condenou o ingresso brasileiro na ação judicial na CIJ contra Israel, chamando a decisão de “uma demonstração de profunda falha moral”. A acusação formal apresentada pela África do Sul culpa Israel por “conduta genocida” e “assassinato em massa de civis”, referência que causou forte reação diplomática.

O Ministério das Relações Exteriores brasileiro, por sua vez, defende que a adesão à ação na CIJ está alinhada à Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, um tratado internacional firmado após a Segunda Guerra Mundial para evitar crimes contra a humanidade. O Brasil justifica sua postura com o “dever dos Estados” de cumprir obrigações internacionais e humanitárias diante da possibilidade real de genocídio contra os palestinos, conforme alertas emitidos pela própria Corte.

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