A comitiva de oito senadores brasileiros, que está desde o último fim de semana em Washington D.C., enfrenta dificuldades para estabelecer contato direto com o governo dos Estados Unidos para discutir o aumento tarifário de 50% sobre produtos brasileiros, previsto para entrar em vigor em 1º de agosto de 2025. Até o momento, não houve abertura por parte da administração do ex-presidente Donald Trump para negociar ou revisar a medida que afeta diretamente as relações comerciais entre os dois países.
Na terça-feira, os parlamentares brasileiros conseguiram se reunir com três senadores do Partido Democrata — oposição ao governo Trump — e com um senador republicano que não mantém boas relações com o ex-presidente. Essa reunião, embora limitada em influência diante da Casa Branca, representa uma tentativa estratégica de diálogo que busca evitar maiores impactos econômicos para o Brasil.
Além desses encontros, a delegação visitou a sede do jornal digital Politico, veículo norte-americano de ampla cobertura política, mas que perde credibilidade entre apoiadores de Trump. O jornal, adquirido em 2021 por um grupo alemão de mídia, é frequentemente criticado pelo ex-presidente, que tende a desconsiderar seu conteúdo. Essa visita buscou levar a pauta brasileira ao centro das discussões políticas dos EUA, na tentativa de ampliar o apoio à causa brasileira.
Reuniões com senadores em meio a resistência à tarifa
Na segunda-feira, os senadores brasileiros estavam otimistas em contar com a presença de parlamentares republicanos aliados ao governo para a reunião de terça-feira. Para isso, mantiveram os nomes em sigilo para evitar pressões que pudessem levar ao boicote. Contudo, o único senador republicano presente foi Thom Tillis, da Carolina do Norte, que desistiu de concorrer à reeleição em 2026 após críticas públicas de Trump em suas redes sociais. Tillis votou contra o pacote fiscal do ex-presidente, o que gerou seu afastamento político.
Além de Tillis, os brasileiros conversaram nos gabinetes dos senadores democratas Martin Heinrich, Ed Markey e Mark Kelly. Heinrich, do Novo México, tem participação ativa nos comitês de Assuntos Econômicos, Recursos Energéticos e Naturais, além de liderar subcomitês em setores estratégicos como agricultura e defesa militar. Markey, de Massachusetts, atua nas comissões de Energia, Comércio e Relações Exteriores. Mark Kelly, astronauta como o brasileiro Marcos Pontes, representa o Arizona e tem um histórico de trabalho focado em inovação e segurança nacional.
Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado e líder da delegação, entregou dados econômicos detalhados sobre os impactos da tarifa para os diferentes estados americanos, reforçando a intenção de criar um entendimento mais profundo sobre como essa medida pode prejudicar ambos os lados. Trad também convidou os senadores americanos a visitarem o Brasil, para que possam conhecer de perto a realidade e os argumentos apresentados na discussão.
“Entregamos informações robustas que explicam os prejuízos com essa decisão para cada estado, além de um convite formal para que possam visitar o Brasil e verificar com seus próprios olhos o impacto desta tarifa”, explicou Trad. Segundo ele, a expectativa é que o “diálogo baseado em dados e experiências reais seja capaz de mostrar que a medida representa uma situação de prejuízo mútuo, um verdadeiro jogo perde-perde”.
Comitiva oficial do Senado brasileiro nos EUA
A missão oficial foi iniciada na segunda-feira e está prevista para continuar até quarta-feira, envolvendo uma série de encontros e articulações políticas. A comitiva é composta pelos seguintes senadores brasileiros:
- Nelsinho Trad (PSD-MS);
- Jaques Wagner (PT-BA), líder do Governo no Senado;
- Tereza Cristina (PP-MS);
- Marcos Pontes (PL-SP);
- Esperidião Amin (PP-SC);
- Fernando Farias (MDB-AL);
- Rogério Carvalho (PT-SE);
- Carlos Viana (Podemos-MG).
Detalhes do anúncio do aumento tarifário
O anúncio da tarifa de 50% veio diretamente do então presidente Donald Trump em 9 de julho, por meio de uma carta encaminhada ao governo brasileiro. Ele divulgou a decisão em sua rede social Truth Social, anunciando o endurecimento das tarifas comerciais a presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre as justificativas, Trump citou, além da disputa comercial, o contexto político interno brasileiro, mencionando o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado.
Esta medida tarifária representa um desafio para as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos, especialmente considerando a importância do comércio bilateral, que envolve produtos agrícolas, industriais e tecnológicos. A falta de diálogo direto com o governo americano reforça a necessidade de ações estratégicas do Congresso brasileiro para buscar soluções diplomáticas e comerciais que evitem prejuízos significativos aos setores produtivos do país.