Os regimes autocráticos ultrapassaram as democracias no cenário mundial, dominando pela primeira vez em mais de vinte anos. Segundo o Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia, o ano de 2024 fechou com 91 países autocráticos contra 88 democráticos. Esse marco indica uma inversão significativa na dinâmica política global, refletindo um contexto de sensibilização urgente sobre os desafios das instituições democráticas.
O Relatório da Democracia 2025, que avaliou 179 nações, revela que cerca de 5,8 bilhões de pessoas, correspondente a 72% da população mundial, vivem sob regimes autocráticos. Esse é o maior índice desde o final dos anos 1970, o que evidencia um refluxo preocupante nos avanços democráticos e um aumento substancial no controle centralizado do poder em escala global.
Diferenças entre autocracias e democracias
As autocracias são sistemas onde o controle político está centralizado em um líder ou grupo restrito, com pouca ou nenhuma participação democrática efetiva. Nesses regimes, as liberdades civis são severamente limitadas e as eleições, quando ocorrem, nem sempre são livres ou justas.
Por outro lado, as democracias funcionais se caracterizam por eleições multipartidárias regulares, direito amplo ao voto e respeito à liberdade de expressão. O relatório destaca que as democracias são mais frequentes em regiões como Europa Ocidental, América do Norte, partes do Leste Asiático, Pacífico, Europa Oriental e algumas áreas da América do Sul. As autocracias, entretanto, predominam no Oriente Médio, Norte da África, Ásia do Sul e Central, e principalmente na África Subsaariana.
Ameaças para a democracia contemporânea
Uma das maiores preocupações apontadas no estudo é a ascensão da desinformação e o aumento da polarização política. Governos autocráticos costumam usar a disseminação de informações falsas para semear desconfiança e minar o debate público saudável. Além disso, a polarização extrema fragiliza as instituições democráticas, transformando diferenças legítimas em conflitos destrutivos.
O relatório esclarece que em países com alta polarização, os cidadãos tendem a priorizar interesses imediatos em detrimento dos valores democráticos fundamentais, tornando-se mais suscetíveis a aceitar autoritarismos em troca de soluções rápidas ou proteção contra ameaças percebidas.
Atualmente, 31 países identificaram o uso crescente de desinformação por parte de seus governos, sendo 21 deles classificados como “autocratizantes”. Entre esses, destacam-se nações como El Salvador, Hungria, Índia, Sérvia e Geórgia. A polarização política teve aumento significativo em 45 países, evidenciando um quadro global de fragilidade democrática.
Impactos nas eleições de 2024
As eleições realizadas em 2024 foram marcadas por episódios alarmantes de violência política e ataques à imprensa, fatores que fragilizam a integridade dos processos eleitorais. Quase um quarto das eleições (14 em 61) apresentaram aumento considerável da violência associada aos pleitos.
O México destacou-se como cenário da eleição mais violenta da história recente, com pelo menos 37 candidatos assassinados durante o período eleitoral. Outros eventos graves incluem tentativas de assassinato contra líderes políticos na Eslováquia e nos Estados Unidos, como a ameaça sofrida pelo então candidato Donald Trump.
Além disso, nove países registraram uma elevação significativa na polarização política durante as eleições, com os Estados Unidos sendo destacado pelo relatório devido aos níveis tóxicos de divisão que marcaram os debates eleitorais.
A integridade das eleições foi comprometida em vários locais. Moçambique registrou fraude generalizada, enquanto no Paquistão o principal líder da oposição, Imran Khan, foi condenado à prisão, sinalizando um ambiente político conturbado e hostil ao pluralismo.
Países na lista de alerta
O documento também inclui uma lista de vigilância com países que mostram sinais iniciais de ameaças aos seus sistemas políticos. Sete países estão na iminência de se tornarem “autocratizantes”. São eles: Chipre, Madagascar, Namíbia, Rússia, Eslováquia, Eslovênia e Togo. Por outro lado, três países demonstram tendência à democratização, destacando-se República Tcheca, Guatemala e Malásia.
Metodologia do estudo V-Dem
O Instituto V-Dem utiliza um rigoroso processo de análise envolvendo anualmente cerca de cinco especialistas para cada país, totalizando mais de 4.200 especialistas ao redor do mundo. As avaliações são convertidas em uma escala contínua por meio de um modelo algoritmo que garante a confiabilidade dos dados e ajusta a percepção de escala e viés dos entrevistados.
Esse método detalhado permite uma avaliação precisa das condições democráticas e autoritárias em cada país, oferecendo uma base robusta para entender tendências e identificar riscos antecipados.