As entidades Abipeças (Associação Brasileira da Indústria de Autopeças) e Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) expressaram preocupação ao governo federal sobre a possível redução das alíquotas de importação para veículos SKD (Semi Knocked Down) e CKD (Completely Knocked Down). Em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as associações criticam a medida por enfraquecer a indústria nacional e favorecer a concorrência de fabricantes estrangeiros, especialmente a chinesa BYD.
O documento, assinado por Cláudio Sahad, presidente da Abipeças e do Sindipeças, alerta que a diminuição dos impostos pode resultar em prejuízos ao setor automotivo brasileiro, reduzindo a geração de empregos e comprometendo investimentos já anunciados. Além do presidente, a carta foi remetida a autoridades como o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sinalizando a abrangência da preocupação governamental.
Entendendo os veículos SKD e CKD
Os modelos SKD e CKD são formas de importar veículos de forma parcial para o Brasil, mas com diferenças importantes. No sistema SKD, o veículo chega parcialmente montado, precisando passar apenas pela montagem final no país. No CKD, os carros são importados completamente desmontados, exigindo montagem integral no território nacional.
Apesar de aparentemente estimularem alguma atividade local, estas práticas têm impacto limitado no emprego e na cadeia produtiva. As montadoras que adotam esses modelos costumam ter baixa integração com fornecedores nacionais, reduzindo significativamente os benefícios econômicos para a indústria local.
A discussão sobre a redução das alíquotas está em análise pela Câmara de Comércio Exterior (Camex), com possibilidade de votação em reunião extraordinária do Comitê Executivo de Gestão (Gecex). A proposta, apresentada pela montadora chinesa BYD, prevê diminuir as taxas atuais de importação de 18% para 5% para carros elétricos e de 20% para 10% para híbridos.
Essa tentativa de redução tem gerado reação da indústria nacional, porque cria o que as associações chamam de “concorrência inusitada” e “renúncia fiscal injustificada”. O receio é que a medida provoque queda na produção e demissões em massa, afetando toda a cadeia de autopeças do país.
Impactos da importação crescente de veículos asiáticos
Dados indicam que as importações de veículos asiáticos aumentaram em torno de 190% no último ano, tendência que continua em ascensão, impulsionada por ajustes nas alíquotas que favorecem a entrada destes produtos. Essa situação preocupa a indústria nacional, que vê ameaçada a sua competitividade e sustentabilidade.
Além disso, a concessão dos benefícios fiscais para veículos SKD e CKD contraria políticas do governo voltadas para estimular a indústria nacional, como o programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), que busca fortalecer a cadeia produtiva local e a transição para tecnologias sustentáveis.
As entidades reforçam a necessidade de bloqueio do pedido de redução pelo presidente, alertando para o risco de que a aprovação abra precedente para que outras montadoras façam solicitações similares, comprometendo ainda mais o setor.
Benefícios direcionados à montadora BYD
A proposta beneficia diretamente a BYD, empresa chinesa que aposta em uma fábrica em Camaçari, na Bahia. O projeto tem ligação política local com Rui Costa, ministro da Casa Civil e ex-governador do estado, o que tem gerado desconforto e dúvidas dentro do setor automotivo sobre a transparência e adequação da medida.
Reação das grandes montadoras instaladas no Brasil
O alerta das associações acompanha posicionamentos recentes de grandes fabricantes no país. Em carta conjunta enviada ao presidente Lula, representantes da Volkswagen, Toyota, Stellantis e General Motors manifestaram oposição à redução das tarifas para SKD e CKD.
Essas montadoras destacam que a mudança pode levar à revisão de investimentos que somam pelo menos R$ 60 bilhões, além de colocar em risco até 50.000 empregos na cadeia automotiva brasileira. O argumento central é que o sistema SKD gera poucos postos de trabalho e pouco envolve fornecedores locais, prejudicando o desenvolvimento industrial nacional.
Contexto geral e perspectivas futuras
O debate sobre a redução de tarifas de importação para veículos SKD e CKD expõe um choque entre políticas de incentivo à produção local e pressões para flexibilização comercial. A indústria nacional demonstra preocupação em proteger empregos, investimentos e a cadeia produtiva, enquanto a proposta traz a promessa de carros mais baratos e maior competitividade na oferta ao consumidor final.
A decisão do governo tem potencial para alterar significativamente o cenário automotivo brasileiro, afetando desde montadoras até fornecedores e trabalhadores. O equilíbrio entre proteção industrial e abertura de mercado permanece como um ponto delicado no planejamento estratégico do setor.