A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) retirou o Brasil do Mapa da Fome, reconhecendo a redução significativa da insegurança alimentar grave no país, que ficou abaixo de 2,5% da população. O anúncio foi feito durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares, realizada em Adis Abeba, na Etiópia.
O dado positivo é resultado da média do triênio 2022/2023/2024, conforme divulgado no relatório SOFI 2025 (Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo). Esse avanço demonstra o impacto das políticas públicas brasileiras e mostra a retomada do país no combate à fome após retrocessos anteriores.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 24 milhões de brasileiros saíram da condição de insegurança alimentar grave até o final de 2023. Essa é a segunda vez que o Brasil deixa o Mapa da Fome durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia alcançado esse objetivo em 2014. Contudo, o país voltou a figurar no mapa no triênio 2018/2019/2020, refletindo a diminuição de programas sociais nesse período.
Avanços nos indicadores sociais
Os indicadores sociais do país apresentam melhorias significativas. A pobreza extrema caiu para 4,4% em 2023, o menor índice já registrado na história do Brasil. A taxa de desemprego também recuou, chegando a 6,6% em 2024, enquanto a renda domiciliar per capita alcançou o valor recorde de R$ 2.020.
Dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que, das 1,7 milhão de vagas de trabalho formal criadas em 2024, 98,8% foram ocupadas por pessoas cadastradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), sendo 75,5% beneficiárias do Bolsa Família. Esses números evidenciam o papel fundamental dos programas sociais na inclusão produtiva e no combate à fome.
O presidente Lula comemorou o feito em seu perfil na rede social X, destacando que “com políticas públicas sérias e compromisso com o povo é possível combater a fome”. O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, também ressaltou a importância dos programas governamentais, como o Plano Brasil Sem Fome, que engloba o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Além disso, o ministro apontou ações complementares, como a melhoria da alimentação nas escolas e os incentivos à qualificação profissional, geração de emprego e empreendedorismo, reforçando a eficácia das políticas públicas integradas para erradicar a fome no país.
O Brasil continuará utilizando a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) nas pesquisas domiciliares do IBGE para monitorar a segurança alimentar e identificar os grupos mais vulneráveis, mantendo o foco em políticas específicas para eliminar a fome de forma definitiva.
Conheça a insegurança alimentar e seus níveis
A insegurança alimentar, de acordo com a Ebia, é caracterizada pela falta de acesso regular a alimentos adequados e em quantidade suficiente. Esse conceito é dividido em três níveis:
- Leve: quando há preocupação ou incerteza sobre o acesso futuro aos alimentos, acompanhada pela possível redução na qualidade dos alimentos para evitar comprometer a quantidade consumida.
- Moderada: marcada pela redução quantitativa do consumo alimentar entre os adultos e/ou alteração nos padrões alimentares habituais.
- Grave: quando ocorre interrupção completa dos padrões alimentares devido à escassez de alimentos para todos os membros do domicílio, incluindo crianças, configurando a condição de fome.
Contrariamente, a segurança alimentar ocorre quando uma família tem acesso contínuo a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente para suprir suas necessidades nutricionais.
Esses critérios são essenciais para a elaboração de estratégias e ações governamentais, garantindo a precisão na identificação das necessidades das populações vulneráveis.
Origem e adaptação da Ebia no Brasil
A escala Ebia foi adaptada no Brasil a partir do Indicador Cornell, desenvolvido pela prestigiosa Universidade Cornell, nos Estados Unidos. O processo de adaptação envolveu cinco instituições brasileiras: Unicamp, Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Essa escala é uma ferramenta importante porque mede diretamente a percepção e experiência das famílias em relação à insegurança alimentar e à fome, possibilitando uma avaliação precisa do acesso e da disponibilidade alimentar dentro dos domicílios.
O que é o Mapa da Fome da FAO
O Mapa da Fome da FAO identifica países onde mais de 2,5% da população vive em situação de subalimentação grave. Estar nesse mapa significa que uma parcela considerável da população não tem acesso regular a uma alimentação suficiente e adequada.
O cálculo do indicador, chamado Prevalência de Subnutrição (PoU), é feito com base em três fatores principais:
- Oferta de alimentos: que inclui a produção, importação e exportação de alimentos;
- Distribuição de renda: que avalia a capacidade da população de comprar alimentos;
- Necessidade calórica média: que considera a demanda energética da população.
Com esses dados, é possível estimar o percentual da população que não tem acesso às calorias mínimas necessárias diariamente. Se este percentual ultrapassa 2,5%, o país é incluído no Mapa da Fome da FAO. Para evitar distorções devido a crises temporárias, a organização utiliza médias móveis trienais para divulgar essas informações.
Principais fontes de dados para políticas públicas no Brasil
O Brasil utiliza diferentes fontes e pesquisas para embasar políticas públicas eficazes no combate à fome e à insegurança alimentar. Dentre as principais estão:
- Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) aplicada pelo IBGE: em pesquisas como a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), mede a insegurança alimentar e a renda;
- Pesquisa Nacional de Saúde: que acompanha indicadores relacionados à alimentação e saúde da população;
- Triagem Tria: realizada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) para identificar famílias em situação de risco;
- Cadastro Único (CadÚnico): que permite estimar o risco de insegurança alimentar grave por município, orientando as políticas locais.