O coronel do Exército Márcio Nunes de Resende Júnior negou ter participado de encontros para pressionar o Alto Comando a apoiar um golpe após as eleições. Em depoimento ao Supremo Tribunal Federal, ele afirmou que as reuniões citadas pela Procuradoria Geral da República (PGR) eram apenas confraternizações informais entre militares, sem qualquer caráter político. A principal reunião em questão ocorreu em 28 de novembro de 2022, em Brasília, no salão de festas do prédio onde seu pai reside na Asa Norte, segundo sua versão.

Naquela ocasião, conforme Resende, não houve convite formal e cada participante levou algo para o encontro, que teve tom amistoso. Ele afirmou ter permanecido até o fim para ajudar a organizar o local e entregar a chave ao porteiro. Essa informação confronta a acusação de que o encontro fazia parte de uma estratégia para influenciar a cúpula das Forças Armadas.

Resende também falou sobre sua participação no grupo de WhatsApp chamado “Dos”, criado em 2013 por militares para troca de informações e convites sociais. Ele descartou ser Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente, o responsável pelo grupo. Em mensagens enviadas em dezembro de 2022, o coronel manifestou frustração com a falta de reação das Forças Armadas diante do cenário político, destacando que, se o artigo 142 da Constituição fosse acionado, a tropa poderia não ser contida por seus generais.

O significado das mensagens e o contexto militar

Nas mensagens, o coronel chegou a alertar que “não haverá general que segure as tropas” caso o artigo constitucional fosse acionado para intervenção militar na garantia da lei e da ordem. Ele explicou que essas palavras refletiam a insatisfação de parcelas militares com o que enxergavam como inação dos comandos diante de manifestações em frente aos quartéis. Segundo Resende, esse silêncio gerava um ambiente volátil entre manifestantes e integrantes das Forças Armadas.

Ao ser questionado, afirmou que foi “desbocado” e que as mensagens eram a expressão do “lado perdedor” que manifestava seu descontentamento. Explicou que os atos em frente aos quartéis aumentavam a pressão, pois davam margem para adesão mais ampla dentro das tropas, o que poderia evoluir para uma situação fora de controle.

O coronel negou conhecer ou ter influenciado o general Valério Stumpf Trindade, citado como resistente a pressões no processo. Também declarou não ter relação com uma carta supostamente elaborada por militares para pressionar o Alto Comando, mencionada pela Procuradoria. Para ele, essa carta foi uma novidade e não esteve presente em nenhum dos encontros que participou.

Detalhes sobre o encontro de novembro de 2022

A reunião realizada em 28 de novembro, segundo Resende, não tinha caráter político ou conspiratório. O grupo era formado majoritariamente por militares das Forças Especiais que costumavam se reunir mensalmente na capital para confraternizações sociais. Apesar disso, a PGR alega que o encontro foi parte de uma estratégia de golpe, organizada pelo coronel Bernardo Romão Corrêa Neto, que buscava “reunir alguns militares das Forças Especiais em funções-chave” para discutir “como influenciar nossos chefes”, conforme mensagem interna de 26 de novembro.

De acordo com a investigação, Bernardo Romão atuava como assistente do comandante militar do Sul à época. Para o Ministério Público, essas reuniões tinham como objetivo articular a pressão sobre o alto escalão do Exército para validar uma ação golpista após as eleições.

O papel do núcleo 3 no suposto plano golpista

A PGR classificou o grupo ao qual Resende pertence como núcleo 3, responsável pelas “ações de campo”. Essas ações incluíam monitoramento e tentativas de neutralizar autoridades públicas, além de pressionar o Alto Comando do Exército para concluir o golpe. Os membros do núcleo são acusados de promover estratégias táticas para essa finalidade.

Esses integrantes são investigados por envolvimento em possíveis ações estratégicas para pressionar lideranças militares e influenciar decisões de caráter político-institucional, que culminariam em tentativa de golpe de Estado.

Aspectos que envolvem as investigações e o cenário atual

O depoimento do coronel Resende insere nuances na apuração em curso, apresentando sua versão que minimiza o caráter político dos encontros. O contexto de tensões pós-eleitorais, manifestado nas mensagens do grupo de WhatsApp e em atos diante dos quartéis, revela um cenário complexo de insatisfação e mobilização dentro de parte das Forças Armadas.

Ao mesmo tempo, a Procuradoria aponta para articulações mais estruturadas que pretendiam alterar o quadro institucional brasileiro, utilizando o comando militar como instrumento. A operação desse núcleo 3, segundo apuração, teria sido parte essencial do suposto planejamento.

Essa dinâmica provoca reflexões sobre a influência das Forças Armadas em momentos críticos da democracia e as fronteiras entre manifestações legítimas de discordância e ações conspiratórias. O sistema jurídico e político acompanha de perto desdobramentos para garantir a estabilidade do Estado de Direito.

O julgamento desse caso ganha atenção nacional por envolver figuras militares de alta patente e ao colocar em debate a independência das instituições frente a pressões internas depois de períodos eleitorais tensos. O episódio também revela o uso de redes de comunicação entre militares e estratégias informais para mobilização interna.

Enquanto o Supremo Tribunal Federal segue com os interrogatórios, aguarda-se uma definição que poderá impactar as relações entre civis e militares no país e fortalecer a importância do respeito às normas constitucionais para a manutenção da ordem democrática.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *