Faleceu aos 74 anos o jornalista Marcelo Beraba, fundador e principal idealizador da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). A notícia triste ocorreu nesta segunda-feira, no Rio de Janeiro, onde ele estava internado no Hospital Copa D’Or, vítima de um tumor cerebral.

Beraba nasceu no Rio de Janeiro e iniciou sua carreira jornalística em 1971, aos 20 anos, como repórter de cidades e cultura no jornal O Globo. Com formação em jornalismo pela UFRJ e pós-graduação em docência do ensino superior, acumulou quase cinco décadas de experiência em grandes veículos da imprensa brasileira, consolidando uma carreira marcada pela ética e dedicação.

Trajetória de Destaque nos Meios de Comunicação

Durante sua longa jornada, Marcelo Beraba passou por algumas das maiores organizações jornalísticas do país, como Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, TV Globo e O Estado de S. Paulo. Em vários desses veículos, assumiu cargos de liderança, como editor de política, diretor de redação e ombudsman.

Na Folha de S.Paulo, onde atuou mais de 20 anos, foi peça-chave na modernização dos processos editoriais, ajudando a implementar padrões rigorosos de apuração e ética jornalística. Conhecido também pela forma respeitosa com que tratava seus colegas, marcou presença nas redações com seu característico vocativo “mestre”.

Principais Coberturas e Contribuições Jornalísticas

Beraba participou de algumas das reportagens investigativas mais significativas das décadas de 80 e 90. Entre elas, destaca-se a exposição do “buraco” de Serra do Cachimbo, revelando os perigos dos testes nucleares brasileiros, além da cobertura do acidente radioativo na usina nuclear de Angra dos Reis.

Ele esteve na linha de frente também em grandes momentos políticos, como as manifestações do movimento Diretas Já e a primeira eleição presidencial direta após o regime militar, em 1989. Sua capacidade de liderança proporcionou à Folha de S.Paulo um papel de destaque no cenário nacional e elevou os padrões do jornalismo político.

Fundação da Abraji e Defesa do Jornalismo Investigativo

A criação da Abraji em 2002 foi um marco impulsionado por Marcelo Beraba, especialmente após o assassinato do jornalista Tim Lopes por traficantes no Rio de Janeiro. Diante da violência enfrentada por profissionais, Beraba liderou a mobilização para fundar uma entidade dedicada a proteger jornalistas e aprimorar técnicas investigativas.

Como o primeiro presidente da associação, Beraba esteve à frente da organização até 2007, estabelecendo colaborações internacionais e desenhando cursos para a formação de jornalistas especializados em investigação. A Abraji tornou-se referência na defesa da liberdade de imprensa e promoção do jornalismo ético e responsável.

Reconhecimento Internacional

O reconhecimento do trabalho de Beraba ultrapassou as fronteiras brasileiras. Em uma cerimônia em Washington, ele recebeu o prestigiado Prêmio Excelência em Jornalismo do International Center for Journalists (ICFJ), que destacou suas contribuições para o jornalismo investigativo e a formação de novas gerações de profissionais comprometidos com a precisão e ética.

Legado e Atuação Pós-Aposentadoria

Após 48 anos atuando nas principais redações do país, Marcelo Beraba se aposentou em 2019, mas continuou envolvido com a formação de jornalistas e ministrando cursos sobre investigação jornalística para jovens repórteres. Seu legado inclui o fortalecimento de métodos rigorosos de apuração, promoção da ética e o incentivo a profissionais que hoje ocupam posições importantes na mídia nacional.

Sua partida representa uma perda irreparável para o jornalismo brasileiro, especialmente para o segmento investigativo, onde foi pioneiro e mentor. A Abraji, com mais de mil associados atualmente, permanece como uma das maiores conquistas de sua trajetória.

Beraba deixa esposa, a jornalista Elvira Lobato, quatro filhos e três netos.

Depoimento em Homenagem a Marcelo Beraba

Rodrigues, colega e amigo, compartilhou uma visão profunda sobre o legado de Beraba:

“Marcelo Beraba sempre será lembrado como exemplo pela integridade, clareza e profissionalismo que defendeu em uma das mais nobres profissões.”

“Foi um dos chefes mais organizados e exigentes com quem tive a honra de trabalhar.”

“Tenho inúmeras histórias de apurações lideradas por ele, sempre apoiando e guiando com dedicação. Sua marca era a generosidade no auxílio, indicando fontes, prazos e procedimentos rigorosos.”

“Beraba fazia o impossível parecer possível, organizava cada etapa com maestria, garantindo a qualidade e a ética do trabalho.”

“Sou muito grato por ter aprendido com ele a importância do planejamento, organização e disciplina no jornalismo.”

“O seu e-mail propondo a criação da Abraji, pouco depois da morte de Tim Lopes, foi o ponto de partida para a maior associação de jornalistas do Brasil. Ele foi o grande idealizador. Milhares de jornalistas que passaram pela Abraji reconhecem essa dívida.”

“Ao longo dos anos, Beraba contribuiu para que a Abraji tivesse uma gestão renovada e democrática, valorizando o diálogo e o respeito pelas diferenças. Seus princípios e atitudes são uma inspiração para jornalistas e cidadãos.”

“Marcelo mostrou que o sucesso no jornalismo não é um talento inato, mas fruto de trabalho sério, planejamento e ética. Que sua obra continue inspirando um jornalismo apartidário e comprometido com a verdade.”

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