A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) divulgou dados recentes que revelam uma redução expressiva no financiamento para construções via Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) no primeiro semestre de 2025. Entre janeiro e maio, os recursos destinados a novos financiamentos caíram 62,9% na comparação com o mesmo período do ano anterior, indicando um cenário desafiador para o setor.

Em números absolutos, foram financiadas 24.115 unidades habitacionais nos primeiros cinco meses de 2025, ante 65.059 unidades no período equivalente em 2024. Esse expressivo recuo também é refletido nos valores financeiros: os financiamentos cairam de R$ 15,5 bilhões para R$ 7,1 bilhões, uma queda de 54,1%. Esses dados evidenciam uma retração importante nos recursos destinados diretamente à produção imobiliária financiada por instituições que utilizam recursos do SBPE.

Esse quadro levanta diversos questionamentos sobre os impactos da conjuntura econômica no financiamento imobiliário e na produção de moradias, enquanto alguns segmentos do mercado de imóveis mantêm crescimento em outras áreas de crédito.

Impactos da Taxa Selic e Saída de Recursos da Poupança

Segundo a economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, a alta da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano – um dos níveis mais elevados desde 2006 –, tem um papel crucial nessa redução no financiamento de construções. A elevação dos juros encarece o custo do crédito para compradores e construtores, dificultando o acesso a recursos para novos projetos.

Além disso, a saída líquida de R$ 49,6 bilhões da caderneta de poupança no primeiro semestre contribuiu para escassez de fundos disponíveis para o setor. Como o SBPE é financiado majoritariamente pela poupança, essa retração compromete diretamente a oferta de recursos para habitação financiada.

“O custo elevado do crédito afeta tanto o consumidor final quanto o produtor imobiliário. As instituições financeiras têm priorizado o crédito para aquisição de imóveis prontos em detrimento de financiamentos para construção nova”, esclareceu Ieda Vasconcelos.

Em contrapartida, houve crescimento no crédito imobiliário para compra de imóveis prontos, com alta de 16,4% no volume de unidades financiadas. Foram 132,3 mil unidades financiadas entre janeiro e maio de 2024, frente a 154 mil no mesmo período de 2025. Isso indica que, enquanto a construção está com financiamento retraído, a demanda por imóveis já existentes permanece aquecida, possivelmente puxada por diferentes linhas de crédito.

Crescimento no Emprego Formal na Construção Civil

Mesmo com os desafios no financiamento, o setor imobiliário manteve um desempenho significativo em geração de empregos formais. Em maio, o número de empregos formais na construção civil ultrapassou 3 milhões, um recorde registrado desde o início da série histórica do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) a partir de 2020.

Apesar desse patamar elevado de trabalhadores contratados, houve retração na criação de novas vagas. O setor gerou 149,2 mil empregos formais entre janeiro e maio de 2025, redução de 6,7% em comparação com quase 160 mil vagas criadas no mesmo intervalo em 2024. O cenário de juros elevados e crédito restrito pode estar limitando o ritmo de expansão do setor.

O salário médio para novas contratações é de R$ 2.436, valor que se destaca como o maior entre todos os setores pesquisados, incluindo serviços, indústria e administração pública. Esse dado evidencia a importância da construção civil tanto para a economia quanto para o mercado de trabalho formal.

Renato Correia, presidente da CBIC, ressaltou que a construção civil continua sendo um motor essencial para o crescimento econômico do país, movimentando empregos e renda mesmo sob condições adversas. No entanto, ele destacou a necessidade urgente de medidas para facilitar um ambiente mais favorável à produção e ao investimento no setor.

Perspectivas para o PIB da Construção Civil em 2025

A CBIC manteve sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil em 2,3% para 2025. Essa estimativa considera o atual cenário econômico, com destaque para a desaceleração nas expectativas de novos investimentos no setor.

Ieda Vasconcelos apontou um “leve otimismo” na projeção, sustentado principalmente pela inércia de lançamentos imobiliários realizados anteriormente, que continuam impulsionando a atividade e gerando empregos. Essa dinâmica aponta que, mesmo com dificuldades no crédito e cenário de juros altos, o setor ainda possui mecanismos para manter ritmo moderado de crescimento.

De forma geral, o ambiente atual exige equilíbrio entre ações que estimulem o financiamento à construção e soluções que mantenham o mercado imobiliário dinâmico, garantindo oferta de moradias e oportunidades para trabalhadores e investidores.

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