Resistência à insulina no cérebro: elo entre Alzheimer e epilepsia

Pesquisas recentes da USP revelam um vínculo importante entre a resistência à insulina no cérebro e duas doenças neurológicas: Alzheimer e epilepsia. Em experimentos com modelos animais, cientistas observaram que essa resistência influencia negativamente tanto os processos neurodegenerativos do Alzheimer quanto a ocorrência de crises epilépticas.

Esses achados corroboram dados clínicos que indicam maior propensão de pacientes epilépticos desenvolverem Alzheimer com o avanço da idade, assim como a frequência de crises convulsivas em pessoas já diagnosticadas com a doença neurodegenerativa.

Complexidade do Alzheimer e a influência da insulina cerebral

Norberto Garcia-Cairasco, neuropesquisador da USP e responsável por este estudo, destaca que a alteração na sinalização da insulina cerebral pode ser um fator comum nas duas patologias. Segundo ele, entender essa relação amplia a percepção da complexidade do Alzheimer, sugerindo que tratamentos focados em apenas um aspecto da doença são insuficientes.

O Alzheimer é uma condição multifatorial e irreversível, cuja hipótese mais aceita atualmente envolve o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro. Essas placas desencadeiam a morte dos neurônios e a perda das conexões sinápticas, levando à demência. Paralelamente, o enfraquecimento da produção do neurotransmissor acetilcolina, processos inflamatórios e alterações na proteína Tau também contribuem para o quadro clínico.

Entretanto, os tratamentos atuais, como os anticolinesterásicos e antiglutamatérgicos, se limitam a controlar sintomas, sem alterar o curso da doença. Curiosamente, já foram identificados casos de pessoas com depósitos amiloides no cérebro, mas sem sinais de Alzheimer, o que indica que outros fatores envolvidos no desenvolvimento da doença ainda precisam ser descobertos.

Alzheimer como uma doença metabólica: a hipótese do diabetes cerebral

Uma proposta apresentada pelo estudo é que a resistência à insulina no cérebro comprometa a plasticidade sináptica no hipocampo, região essencial para a memória. Essa resistência pode prejudicar a função colinérgica, aumentar a neuroinflamação e acelerar a degeneração neuronal, facilitando o acúmulo das proteínas beta-amiloide e Tau.

Embora o diabetes seja um fator de risco conhecido para Alzheimer, a resistência insulínica cerebral pode acontecer mesmo na ausência de diabetes tipos 1 ou 2. Por isso, alguns especialistas sugerem que o Alzheimer possa ser considerado uma “diabetes tipo 3”, um quadro caracterizado pela resistência específica do cérebro à insulina.

Em paralelo, a epilepsia é um distúrbio marcado por crises convulsivas que podem ser desencadeadas por diversos fatores, incluindo alterações metabólicas. A ligação entre a epilepsia e os processos metabólicos do cérebro ainda está sendo estudada, mas há evidências indicando que a resistência à insulina também pode agravar a suscetibilidade a convulsões.

Esse entendimento mais amplo reforça a noção de que tanto o Alzheimer quanto a epilepsia são doenças complexas, cuja inter-relação e ligação com o metabolismo cerebral merecem investigação aprofundada.

Modelos experimentais confirmam a ligação entre resistência insulínica e crises epilépticas

Testando a hipótese do Alzheimer como diabetes cerebral, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP utilizaram a substância estreptozotocina para induzir Alzheimer experimentalmente em ratos. Após essa indução, os animais passaram a apresentar características epilépticas, incluindo crises desencadeadas por estímulos sonoros.

Alguns roedores da linhagem WAR – geneticamente modificados para pesquisas em epilepsia – também manifestaram alterações típicas do Alzheimer, como a hiperfosforilação da proteína Tau e redução dos receptores de insulina no hipocampo. A única dose da droga provocou resistência à insulina cerebral, piora da memória e aumento tanto na frequência quanto na intensidade das crises.

Em experimentos, foi observada maior ativação neuronal em áreas do cérebro ricas em receptores de insulina, sustentando a ideia de que a resistência à insulina está diretamente ligada à epilepsia e a sua conexão com a doença de Alzheimer.

Além disso, os pesquisadores constataram que fatores genéticos influenciam a resposta à interrupção da sinalização insulínica, impactando o progresso dessas doenças.

Avanços futuros e estudos colaborativos

A linhagem de ratos desenvolvida para esses estudos foi disponibilizada para pesquisadores internacionais, permitindo que a pesquisa ganhe alcance global. Antes da doação, os animais passaram por rigorosos processos de higienização para atender exigências sanitárias internacionais.

A equipe da USP segue aprofundando essa conexão entre epilepsia e Alzheimer, planejando replicar os achados em tecidos de pacientes submetidos a cirurgias para epilepsia farmacorresistente. Com o apoio de técnicas avançadas de proteômica e transcriptômica, em colaboração com a Universidade Harvard, será possível identificar alterações genéticas e proteicas ligadas a esses distúrbios.

Esse avanço abre caminhos para a compreensão dos mecanismos que unem essas doenças e para o desenvolvimento de terapias que possam atuar no metabolismo cerebral, indo além do tratamento dos sintomas.

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