O tenente-coronel do Exército Hélio Ferreira Lima declarou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o arquivo conhecido como “Operação Luneta”, apreendido em um pendrive em sua posse, não configurava um plano golpista, mas sim um “estudo prospectivo de cenários”. A explicação foi dada durante seu depoimento na investigação que apura uma suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições presidenciais.

Lima é um dos cinco presos na operação Contragolpe, da Polícia Federal (PF), que mira os chamados “kids pretos”, grupo suspeito de arquitetar atentados contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. Conforme a PF, o documento atribuído ao tenente-coronel indicava estratégias para “restabelecer a lei e a ordem” e sugeria neutralizar a atuação do STF, com referências diretas a Moraes.

O militar explicou que o arquivo foi produzido no setor de inteligência da 6ª Divisão do Exército, em Porto Alegre (RS), onde trabalhava. Ele reforçou que o conteúdo representava uma prática comum de análise e projeção de cenários, prevista em manuais militares, e que não continha ordens nem planos operacionais concretos.

“Era somente uma ferramenta para cenários hipotéticos, sem etapas de execução. O documento foi descartado em dois dias e eu não tinha autoridade para transformá-lo em ação – estava dois níveis acima na hierarquia”, ressaltou.

Lima também afirmou que o estudo partia de uma hipótese, considerada por ele como “puramente teórica”, de detecção de fraudes nas urnas eletrônicas. Reforçou que não houve previsão de ruptura institucional e que não constava no documento qualquer menção à eliminação de autoridades ou medidas ilegais.

Além do arquivo, ele respondeu sobre troca de mensagens com o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lima admitiu ter repassado a Cid um arquivo que circulava entre manifestantes, relacionado ao código das urnas eletrônicas, mas negou intenção de incentivar ações contra o sistema eleitoral.

“Li rapidamente e encaminhei dizendo que merecia análise. Não pedi para divulgar nem manifestei opinião. Acompanhei as tensões dos dois lados porque era oficial de inteligência”, afirmou.

Segundo o tenente-coronel, mantinha contato para tentar diminuir os ânimos, acompanhando manifestações em frente a quartéis em Porto Alegre e tentando evitar violência.

“Meu desejo era que tudo terminasse sem conflito. Queria que o presidente mandasse as pessoas para casa antes de qualquer uso do Exército. Não queria ver nossos soldados enfrentando manifestantes com a bandeira do Brasil”, declarou.

Viagem a Brasília e monitoramento negado

Durante o interrogatório, Lima negou que sua viagem a Brasília tenha tido finalidade de monitorar autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes, e descartou qualquer atividade de vigilância.

Comprovou que viajou para auxiliar a mudança de um dos filhos que vivia em apartamento insalubre, apresentando conversas com a ex-esposa que confirmariam a situação. Justificou a curta estadia por precisar retornar para acompanhar a formatura do filho mais novo, que estaria emocionalmente abalado.

Perfil do núcleo 3 no suposto plano golpista

A Procuradoria-Geral da República (PGR) aponta que o grupo identificado como núcleo 3 era responsável pelas “ações de campo”, incluindo monitoramento e neutralização de autoridades públicas. Estes militares também estariam envolvidos em pressionar o alto comando do Exército para concretizar o golpe.

Os acusados do núcleo incluem:

Este conjunto de autoridades e agentes enfrenta investigações que buscam esclarecer o papel que cada um desempenhou neste episódio controverso que mistura política, segurança e a defesa das instituições brasileiras.

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